CONDIÇÕES PRECÁRIAS E POLÍTICAS SOCIAIS

UMA ABORDAGEM INTERSECCIONAL DA MIGRAÇÃO VENEZUELANA NA REGIÃO METROPOLITANA DE PORTO ALEGRE - RS

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Autores

  • Gabriel de Souza Universidade Feevale
  • Dinora Tereza Zucchetti Universidade Federal do Rio Grande do Sul
  • Laura Marcela Ribero Rueda Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Palavras-chave:

Políticas públicas, Interseccionalidade, Inclusão social, Vulnerabilidade social.

Resumo

A inclusão social de migrantes internacionais permanece invisibilizada no debate público, como indica Oliveira (2020). Esta pesquisa, realizada em um município da Região Metropolitana de Porto Alegre, busca entender o reconhecimento político e as condições precárias de mulheres, jovens e crianças migrantes venezuelanas. Ao aprofundar a análise, evidencia-se que tais experiências raramente são incorporadas, e quando o são, não há enfrentamento consistente das múltiplas vulnerabilidades vivenciadas, especialmente por mulheres negras e empobrecidas. A investigação adota perspectiva qualitativa e interdisciplinar, articulando Ciência Política, Sociologia e Filosofia. Metodologicamente, mobiliza a triangulação (Triviños, 1987), combinando revisão narrativa da literatura, análise documental e pesquisa de campo em instituições sociais situadas em um bairro com alta concentração migrante. Os referenciais de Bello e Santos (2020) e Weber (2022) ressaltam que migrantes frequentemente não têm acesso a informações sobre direitos e proteção social, vivenciando desintegração social, desemprego ou emprego informal e discriminação étnica. Dias e Sierra (2021) problematizam a condição do estrangeiro como figura social negligenciada, enquanto Santos e Alves (2022) denunciam a cidadania transnacional adiada. O contexto gaúcho, segundo Foguesatto et al. (2023), revela a ausência de ação pública coordenada, transferindo às comunidades religiosas e ao terceiro setor a responsabilidade pelo acolhimento. Essa realidade aprofunda vulnerabilidades sociais, vinculando migrantes ao trabalho precarizado e desprotegido. A condição das crianças e jovens migrantes, discutida por Rezende (2023) e Tourinho e Sotero (2024), explicita riscos à subjetividade e aos direitos sociais, como assistência social, saúde e educação, frequentemente ignorados. A partir da noção de condições precárias (Butler, 2019, 2023) e cuidado (Gonzálvez Torralbo; Speroni, 2022; López et al., 2022), discute-se a filosofia da migração (Di Cesare, 2020; Fabri, 2013). Observa-se que mulheres migrantes negras são duplamente vulnerabilizadas: pela sobrecarga do cuidado, pelo trabalho precarizado e pelo racismo estrutural que reforça sua marginalização. Além disso, jovens e crianças migrantes enfrentram a centralização das políticas sociais e a ausência de ações intersetorias, capazes de integrar diferentes esferas e fortalecer a proteção social. Conclui-se que as políticas sociais inespecíficas negligenciam a materialidade socioeconômica da migração contemporânea, deixando de enfrentar as desigualdades de gênero, classe e raça. O reconhecimento formal das migrantes como sujeitos de direitos ainda é incipiente, e o cuidado social permanece restrito às redes informais. Assim, a persistência da vida em condições precárias (Butler, 2019) no cotidiano migrante aponta para a urgência de políticas públicas interseccionais, territorializadas e comprometidas com a dignidade de migrantes venezuelanos.

Biografia do Autor

Gabriel de Souza, Universidade Feevale

Mestrando em Diversidade Cultural e Inclusão Social pela Universidade Feevale

Dinora Tereza Zucchetti, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Doutora em Educação pela UFRGS

Laura Marcela Ribero Rueda, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Doutora em Artes Visuais pela UFRGS

Referências

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Publicado

2025-12-07

Como Citar

Souza, G. de, Zucchetti, D. T., & Rueda, L. M. R. (2025). CONDIÇÕES PRECÁRIAS E POLÍTICAS SOCIAIS: UMA ABORDAGEM INTERSECCIONAL DA MIGRAÇÃO VENEZUELANA NA REGIÃO METROPOLITANA DE PORTO ALEGRE - RS. ANAIS DO SEMINÁRIO DE POLÍTICAS PÚBLICAS E INTERSECCIONALIDADES, 4(1), 01–03. Recuperado de https://revistas.ceeinter.com.br/anaisseminariodepoliticaspublica/article/view/2929