“Gênero nunca mais”

O discurso de proteção à infância nos projetos de lei apresentado à Câmara dos Deputados

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Autori

Parole chiave:

Legislação antigênero, Camâra dos Deputados, Infância, Dispositivo da sexualidade, Ideologia de Gênero

Abstract

Este artigo analisa o discurso de proteção à infância articulado por movimentos antigênero e grupos ultraconservadores como ferramenta de controle social e normatização da subjetividade infantil. Trata-se de uma análise qualitativa e documental de 35 projetos de lei apresentados à Câmara dos Deputados, com foco nas justificativas que acompanham essas proposições. A partir desse material, identificam-se dois principais argumentos mobilizados para sustentar a retórica da proteção: a condição de pessoa em desenvolvimento e a erotização precoce e a pedofilia. O presente estudo concentra-se na análise desses dois elementos. Os dados demonstram que tais justificativas são utilizadas de forma estratégica para associar qualquer menção à diversidade de gênero e sexualidade à ideia de ameaça ou desvirtuamento da infância. Apoiado em narrativas de pânico moral, o discurso construído retrata a infância como vulnerável, pura e assexual, devendo ser rigidamente vigiada e protegida contra conteúdos que desafiem a moral cisheteronormativa. Os resultados da análise confirmam a hipótese inicial: as justificativas apresentadas nos projetos de lei não mantêm relação efetiva com a proteção da infância, mas operam como mecanismo disciplinador que impõe limites rígidos às expressões de gênero e sexualidade. Observa-se que o uso da infância como um lugar de incapacidade e assexualidade sustenta a perpetuação do dispositivo da sexualidade, negando o caráter plural da infância e impedindo que crianças e adolescentes possam descobrir e desenvolver sua personalidade e identidade de forma livre e natural. Conclui-se que a ofensiva antigênero, expressa na crescente produção legislativa restritiva, legitima práticas excludentes e autoritárias que instrumentalizam o medo social para reforçar estruturas normativas e conservadoras, especialmente no contexto político brasileiro recente.

Biografia autore

Aryel Raphaela Guimarães Amaral de Sá, Universidade Federal de Ouro Preto

Graduada em Direito pela Universidade Federal de Ouro Preto, possui trajetória acadêmica voltada às pesquisas em gênero e sexualidade, área à qual se dedica desde a graduação. É pós-graduada em Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e, atualmente, cursa pós-graduação em Direito e Processo Penal.

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Pubblicato

2026-01-22

Come citare

Sá, A. R. G. A. de. (2026). “Gênero nunca mais”: O discurso de proteção à infância nos projetos de lei apresentado à Câmara dos Deputados. COR LGBTQIA+, 1(10), 100–123. Recuperato da https://revistas.ceeinter.com.br/CORLGBTI/article/view/2491