UÓLACE E JOÃO VICTOR NO JORNAL
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Análise crítica do discurso, Correio Serrano, Ideologia, Infância, Instituto de MenoresApstrakt
Este estudo investiga os discursos produzidos pelo jornal Correio Serrano, veiculado em Ijuí (RS), entre os anos de 1950 e 1955, no contexto da mobilização social para a criação do Instituto de Menores de Ijuí. A análise centra-se em 100 edições do periódico, com ênfase nas expressões recorrentes utilizadas para nomear e qualificar atores sociais, ações, sentimentos e valores associados à campanha de construção do Patronato de Menores. A metodologia adotada insere-se no campo da Análise Crítica do Discurso (ACD), com base nos aportes teóricos de Teun A. van Dijk, Norman Fairclough e Patrick Charaudeau. Van Dijk contribui com a compreensão da ideologia no discurso jornalístico e da organização textual como prática de poder simbólico; Fairclough auxilia na leitura das relações entre discurso e prática social em contextos institucionalizados; Charaudeau é mobilizado para refletir sobre o contrato de comunicação do jornal com seus leitores e o ethos construído pelos enunciadores. Os dados foram organizados em categorias discursivas como: “qualidades do povo ijuiense”, “autoridades e distinção social”, “grandeza do empreendimento”, “teleologia do Lar”, “pressa”, “crianças e adolescentes”, “doações” e “eventos em benefício do Lar”. Cada uma foi alimentada por expressões textuais classificadas e interpretadas conforme seus sentidos implícitos e sua função argumentativa. Os resultados indicam a presença de um discurso fortemente legitimador da iniciativa, que opera com ênfases retóricas em temas como sacrifício, solidariedade, utilitarismo nacionalista e distinção moral da elite envolvida. O jornal, ao reportar os esforços para a fundação da instituição, constrói uma narrativa heroica e unificadora, enquanto estigmatiza os futuros acolhidos como “elementos não muito desejáveis” ou “magotes de infelizes”, reforçando um imaginário social da infância marginal como ameaça passível de correção disciplinar. Na discussão, argumenta-se que o discurso do Correio Serrano reforça hierarquias sociais, representações higienistas e estratégias de mobilização moral e emocional, ancoradas na construção de um “nós” virtuoso frente a um “outro” desvalorizado. Considera-se, por fim, que o jornal funciona, neste caso, como instrumento de produção de consenso e mediação ideológica, operando seletivamente com os sentidos disponíveis na sociedade local para legitimar uma obra que, sob o pretexto da proteção, reproduz normas e expectativas sociais dominantes. Este trabalho contribui, assim, para a compreensão do papel da imprensa regional na conformação de projetos educacionais e assistenciais no Brasil do século XX.