HISTÓRIA TRISTE, TODO MUNDO TEM
TRAJETÓRIA (AUTO)BIOGRÁFICA NA PESQUISA CIENTÍFICA
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(Auto)biografia, marxismo, ERER, trajetórias negrasApstrakt
A rotina acadêmica, entre outros elementos dialógicos, preconiza a necessidade de divulgação científica. Ao concebermos o campo onde nos inserimos e as temáticas de interesse, nos vemos obrigados a pôr à prova nossas ideias e escolhas epistemológicas, em tempos de cientificidades difusas. Na concepção do materialismo histórico-dialético (MHD) como base sociofilosófica de análise da realidade e das relações educacionais (MARX, 2007), intuo, no texto exposto, apresentar os limites argumentativos das trajetórias e das (auto)biografias, enquanto ferramentas teórico-analíticas de análise social. Sendo toda pesquisa pautada na existência de um ser pensante, forjado em dado contexto histórico-social, a acepção de um memorial, uma tez (auto)biografia é relevante na justificação das escolhas (e das exclusões) científicas realizadas pelo pesquisador, nas aproximações político-ideológicas entoadas e nos projetos sociais pretendidos por tal intelectual. No entanto, com o advento de teorias pós-coloniais e decoloniais nos espaços acadêmicos, referidas a certos espectros identitários, a filiação ao campo da ERER (Educação para as Relações Étnico-raciais) tem automatizado a negação de conhecimentos provenientes das ciências modernas e de suas filosofias. O principal argumento, universalizante, de forma contraditória às premissas teóricas, é a impossibilidade ou limitação do uso de epistemes produzidas por homens “brancos” e europeus, invocando os ressentimentos históricos (FERRO, 2007), e legítimos, de grupos marginalizados no construir e no permanecer da modernidade. Vale ressaltar que ao falar de ressentimento, não cabe a moralização das relações materiais, em última instância, sendo o conceito de moralidade um dos elementos passíveis de debate no campo das ciências sociais. O central é refletir as contradições entre os usufrutos reais da modernidade e o afastar teórico de dadas posições epistemológicas. O estar no espaço universitário. O ser um intelectual referendado traz, em si, contextos advindos de acúmulos tecnológicos e científicos milenares, propagados pela capacidade humana de educar. Ah! Faz-se relevante me apresentar mediante linhas estéreis de visualidades. Sou uma mulher preta, mãe de dois meninos pretos, filha de pais nordestinos migrados e com estudos incompletos. A universidade se revelou, ocasionalmente, como uma possibilidade nos trajetos das ações afirmativas e leis de cotas, em 2004. Racismos, desistências e movimentos sociais depois, no caminho do mestrado, a imanência da decolonialidade advinda dos movimentos afroculturais negros encontra barreiras explicativas para minha realidade material. A aproximação ao campo dos estudos marxianos fora inevitável. Essa é uma breve tez (auto)biográfica da professora de História pelos olhares de Nóvoa (2014). Logo, história triste, toda mulher preta, atravessada pelas questões raciais brasileiras e o racismo, tem. Do “azar” mal-nomeado à efetiva compreensão do racismo à brasileira (MUNANGA, 1996 apud MOEHLECKE, 2023), histórias muitas me atravessaram. Histórias todas de muita resistência e de espelhamentos para devires outros. Mas, essas histórias justificam tudo? Essas histórias nos permitem ascender ao campo das individualidades de uma modernidade permanente e capitalista no ugir de mobilidades personalísticas? O ensaio teórico que situa a trajetória (auto)biográfica como ferramenta capaz de atuar dentro de certos limites, nos encaminha a pensar: “A quem interessa transformar Marx num homem “branco” e europeu?”.