Uma abordagem viável para iniciar o debate sobre intersexualidade no ensino de ciências biológicas

Relato das construções teóricas e metodológicas de uma palestra

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Autores

DOI:

https://doi.org/10.56579/cor.v1i10.2448

Palavras-chave:

Intersexualidade, Binariedade de gênero, Ensino de Ciências Biológicas, Pedagogia.

Resumo

O debate sobre a intersexualidade é uma questão complexa que abrange dimensões biológicas, sociais e culturais, já que indivíduos intersexo apresentam variações genéticas, anatômicas ou hormonais que desafiam as classificações binárias do sexo. Historicamente visto como um binário fixo, o sexo frequentemente ignorou a diversidade biológica, enquanto instituições sociais como a educação e a mídia reforçam normas rígidas, marginalizando identidades dissidentes. Este estudo, realizado na Universidade Federal de Alfenas, avaliou as percepções de estudantes de Ciências Biológicas sobre a intersexualidade. Para isso foi aplicado um questionário antes e após (pré- e pós-teste) uma palestra sobre o tema: Intersexualidade, um descolamento do biológico ao social. Os resultados além de revelarem lacunas na formação des estudantes: 45% não tinham conhecimento prévio sobre o tema, e 60% não tiveram exposição curricular ao assunto, e mostraram uma melhora significativa da compreensão sobre o tema após a palestra - 90% ampliaram seu entendimento, e 70% apoiaram a maior inclusão do tópico. A análise estatística (teste U de Mann-Whitney, p<0,0001) confirmou maior compreensão da intersexualidade como variação biológica (pontuação mediana: 3→5) e de sua interação sociobiológica (3→5). Embora desafios como a baixa taxa de resposta (50%) e desengajamento (ex.: uso de smartphones) tenham sugerido resistência residual. O estudo destaca a necessidade de integrar a intersexualidade nos currículos de biologia para desconstruir paradigmas binários, alinhando-se à Diretriz nº 7/2002 do Conselho Federal de Biologia do Brasil, e recomenda pesquisas futuras para abordar limitações metodológicas (ex.: validação de questionários) e avaliar impactos em longo prazo.

Biografia do Autor

Efeh Victorio Monteiro Crempe, UNIFAL-MG

Bacharela em Ciências Biológicas (UNIFAL-MG, 2024) e mestranda no PPGMCF-UNIFAL. Desenvolve materiais didáticos com metodologias ativas e divulgação científica, com foco na inclusão de debates sobre gênero e sexualidade na graduação. Sua pesquisa aborda as Diferenças do Desenvolvimento do Sexo (DDS) e uma perspectiva queer no ensino de Biologia, fundamentada nas obras de Joan Roughgarden e Anne Fausto-Sterling

Breno Matheus Sabóia Rangel, UNIFAL-MG

Educação Física (licenciatura e Bacharelado) pela Fundação Educacional de Machado. Tem experiência na área de Educação Física, com ênfase em Educação Física escolar, especialização em Fisiologia do Exercício pelo Centro Universitário Internacional (2015-2016). Mestrado em Ciências Fisiológicas pelo programa de Pós Graduação Multicêntrico em Ciências Fisiológicas (PPGMCF) da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG).

Caio César Souza Coelho, UNIFESP

Doutorando em Medicina, com ênfase em Endocrinologia e Metabologia UNIFESP. Mestre em Ensino de Biologia- PROFBIO/UFMG. Pós-graduado em Análises Clínicas, Gestão escolar e Serviços de imunização e vacinas. Graduado Ciências Biológicas e Técnico em Análises Clínicas. Coordenador de Pesquisa, Iniciação Científica e Pesquisa; e Professor da Faculdade Atenas de Sete Lagoas/MG. Experiência com laboratório, docência, gestão, e pesquisas em torno do ensino de biologia com foco em sistemas genitais humanos, gênero, sexo e sexualidade.

João de Deus de Souza Paiva, UFRN

Graduando em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Bolsista do projeto: "Meu Corpo, Mas Será que Entendo", vinculado ao departamento de Fisiologia e Comportamento. O projeto discute infecções sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência e tem como público alvo: adolescentes e educadores. Também faço parte da Associação Brasileira de Intersexo (ABRAI).

Gabrielle Weber, USP-Lorena

Bacharela em Ciências Moleculares pela Universidade de São Paulo (2006) e Doutora em Física pela Universidade de São Paulo (2011). Fez pós-doutorado no Instituto de Física da Universidade de São Paulo. Atualmente, é professora na Escola de Engenharia de Lorena da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Física das Partículas Elementares e Campos com ênfase em integrabilidade. Trabalha também com grafeno, mateirais topológicos, gênero, sexualidade e transfeminilidades. Coordena o projeto Levantamento da Ciência LGBTQIA+ Brasileira e o Projeto Corpas Trans na USP. Faz divulgação científica inclusiva no "Mamutes na Ciência" e desenvolve jogos educacionais no JEDAI.

Roseli Soncini, UNIFAL-MG

Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (1992), mestrado em Fisiologia pela mesma instituição (1996) e doutorado em Fisiologia pela Universidade de São Paulo (2000). Atualmente, é professora titular da Universidade Federal de Alfenas e dedica-se a pesquisas na área de Fisiologia, com ênfase em Fisiologia Respiratória e subáreas correlatas. Também desenvolve e publica trabalhos voltados à elaboração e avaliação de materiais didático-pedagógicos relacionados à sua área de atuação.

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Publicado

31-01-2026

Como Citar

Crempe, E. V. M., Rangel, B. M. S., Coelho, C. C. S., Paiva, J. de D. de S., Weber, G., & Soncini, R. (2026). Uma abordagem viável para iniciar o debate sobre intersexualidade no ensino de ciências biológicas: Relato das construções teóricas e metodológicas de uma palestra. COR LGBTQIA+, 2(10), 196–211. https://doi.org/10.56579/cor.v1i10.2448

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Artigos