Cidadão, humano, digno
Exclusões históricas e a ética trans da resistência
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https://doi.org/10.56579/cor.v3i10.2664Palavras-chave:
Ética, Trans, Resistência, Exclusões históricasResumo
A corporeidade e vivência trans são relegadas à margem das discussões filosóficas, sociais e políticas, fazendo com que características centrais da vida moderna revelem essa exclusão. Em uma breve definição histórica dos conceitos de cidadão, humano e sujeito digno, é possível delinear a negação ontológica da transgeneridade que resulta, na prática, em efeitos da necropolítica de gênero e da colonialidade epistêmica. A transgeneridade é uma identidade e ontologia da resistência, é possível legitimar saberes trans como dispositivos críticos capazes de desestabilizar as normatividades éticas excludentes e propor alternativas. Essa legitimação epistêmica e existencial tem potência transformadora prática para inspirar e sustentar a presença de pesquisadores trans nas universidades, influenciar políticas públicas com sensibilidade interseccional e contribuir com a construção de um paradigma ético que reconheça a complexidade da vida em contextos de opressão múltipla. Reconhecer esses corpos como tecnologias de sobrevivência e reinvenção é, também, reconhecer sua relevância na formulação de modos de pensar e agir. A omissão de explicitar a corporalidade não é nova na filosofia e abre espaço para interpretações excludentes muito vistas na história nas definições de cidadão, humano e digno. É importante reconhecer que todos os exemplos de exclusão e violência ao longo da história ocorreram dentro de algum panorama ético vigente. O problema, portanto, não está na ausência de ética, mas na forma seletiva como foi aplicada. A corporeidade trans se encontra marginalizada da proteção ética, na filosofia política e nas práticas de cidadania, tais exclusões se estruturam nas categorias modernas regidas pela biopolítica e necropolítica. Há uma grande necessidade de credibilização epistêmica trans no pensamento crítico, juntamente com uma urgência de políticas de proteção à vida trans pela ampliação do campo ético de cuidado, proteção e luto. Ignorar as experiências trans não é apenas antiético, mas compromete a possibilidade de uma construção ética efetiva contra a hegemonia da violência.
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