Entre história, memória e turistificação

A construção de espaços queer em Amsterdam

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Autores

Palavras-chave:

Espaço Queer, Turismo LGBTQI+, Reguliersdwarsstraat

Resumo

As pesquisas sobre identidades sexuais têm ganhado destaque em várias áreas nos últimos anos. Na geografia e sociologia, elas são vistas como elementos que produzem e modificam o espaço urbano, enquanto no turismo, o foco está nas diversas práticas de consumo de indivíduos LGBTQI+. A geografia queer observou que as pessoas LGBTQI+ desenvolveram práticas que transformaram antigos guetos em notáveis gayborhoods (bairros gays), em um processo chamado de gaytrificação, que alterou a maneira como vivenciamos as cidades. A percepção de LGBTQI+ no espaço urbano resultou em interpretações dos guetos, que, após o processo de gaytrificação, originaram gayborhoods em diversas metrópoles, apontando para as constantes transformações desses espaços. A pesquisa em geografia queer revela contribuições para os estudos de turismo, indicando que as interseções entre sexualidade e espaço contribuem para o desenvolvimento de destinos turísticos. Para compreender a turistificação queer, realizou-se uma análise de imagens no Instagram ambientadas na Reguliersdwarsstraat, principal rua de lazer e recreação destinada ao público LGBTQI+ em Amsterdam. O corpus de análise de 7476 fotografias compartilhadas entre 2012 e 2023 possibilita identificar um processo de gaytrificação na área ocorrido após a década de 1960, caracterizando-a como uma queer precinct, de alto fluxo turístico, principalmente no período noturno e nos meses de verão. Os frequentadores desempenham práticas gaytrificadoras, que compartilhadas no Instagram, criam uma imagem gay-friendly da cidade. Deste modo, é possível afirmar que a gaytrificação e turistificação preservam o legado histórico e cultural LGBTQI+, impulsionam o turismo e a economia local. O Instagram contribui na promoção de queer precincts, e a importância dos gayborhoods turistificados está em possibilitar a expressão pessoal e na celebração da diversidade. Conclui-se que esses locais não só resistem ao de-gaying, mas também diversificam a oferta turística das cidades e oferecem um vislumbre de um futuro inclusivo e celebrativo.

Biografia do Autor

Christopher Smith Bignardi Neves, UFPR

Doutor em Geografia, Mestre em Turismo, Técnologo em Gestão de Turismo pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).  Doutorando em Educação pela UFPR, Pedagogo pela Universidade Estadual do Paraná. Licenciatura em Geografia pela Faculdade Cidade Verde. 

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Publicado

31-01-2026

Como Citar

Neves, C. S. B. (2026). Entre história, memória e turistificação: A construção de espaços queer em Amsterdam. COR LGBTQIA+, 2(10), 106–125. Recuperado de https://revistas.ceeinter.com.br/CORLGBTI/article/view/2043

Edição

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Artigos