Entre história, memória e turistificação
A construção de espaços queer em Amsterdam
Visualizações: 47Palavras-chave:
Espaço Queer, Turismo LGBTQI+, ReguliersdwarsstraatResumo
As pesquisas sobre identidades sexuais têm ganhado destaque em várias áreas nos últimos anos. Na geografia e sociologia, elas são vistas como elementos que produzem e modificam o espaço urbano, enquanto no turismo, o foco está nas diversas práticas de consumo de indivíduos LGBTQI+. A geografia queer observou que as pessoas LGBTQI+ desenvolveram práticas que transformaram antigos guetos em notáveis gayborhoods (bairros gays), em um processo chamado de gaytrificação, que alterou a maneira como vivenciamos as cidades. A percepção de LGBTQI+ no espaço urbano resultou em interpretações dos guetos, que, após o processo de gaytrificação, originaram gayborhoods em diversas metrópoles, apontando para as constantes transformações desses espaços. A pesquisa em geografia queer revela contribuições para os estudos de turismo, indicando que as interseções entre sexualidade e espaço contribuem para o desenvolvimento de destinos turísticos. Para compreender a turistificação queer, realizou-se uma análise de imagens no Instagram ambientadas na Reguliersdwarsstraat, principal rua de lazer e recreação destinada ao público LGBTQI+ em Amsterdam. O corpus de análise de 7476 fotografias compartilhadas entre 2012 e 2023 possibilita identificar um processo de gaytrificação na área ocorrido após a década de 1960, caracterizando-a como uma queer precinct, de alto fluxo turístico, principalmente no período noturno e nos meses de verão. Os frequentadores desempenham práticas gaytrificadoras, que compartilhadas no Instagram, criam uma imagem gay-friendly da cidade. Deste modo, é possível afirmar que a gaytrificação e turistificação preservam o legado histórico e cultural LGBTQI+, impulsionam o turismo e a economia local. O Instagram contribui na promoção de queer precincts, e a importância dos gayborhoods turistificados está em possibilitar a expressão pessoal e na celebração da diversidade. Conclui-se que esses locais não só resistem ao de-gaying, mas também diversificam a oferta turística das cidades e oferecem um vislumbre de um futuro inclusivo e celebrativo.
Referências
AMSTERDAM. Bezoekersprognose 2023-2025. Gemeente Amsterdam: Onderzoeken Statistiek, junho de 2023. 2023. Disponível em: https://onderzoek.amsterdam.nl/publicatie/bezoekersprognose-2023-2025. Acesso em: 03 fev. 2024.
BELARMINO, V. H.; DIMENSTEIN, M. D. B. Experiência Urbana Gay na Cidade: uma Revisão Sistemática. Revista Subjetividades, v. 21, n. 3, p. e11461-e11461, 2021.
BELK, R. W. Possessions and the Extended Self. Journal of Consumer Research, v. 15, p.139-168, 1988.
BOURDIEU, P. Gosto de classe e estilos de vida. In: ORTIZ, Renato. Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BOURDIEU, P. The Forms of Capital. In: Richardson, J. G. Handbook of Theory and Research for the Sociology of Education. New York: Greenwood Press, 1986, p. 241-258.
BOY, J. D.; UITERMARK, J. Reassembling the city through Instagram. Transactions of the Institute of British Geographers, v. 42, p. 612-624, 2017.
BOZZI, N. #digitalnomads, #solotravellers, #remoteworkers: A Cultural Critique of the Traveling Entrepreneur on Instagram. Social Media + Society, v. 6, n. 2, p. 1-15, 2020.
CASTELLS, M.; MURPHY, K. Cultural identity and urban structure: the spatial organization of San Francisco’s gay community. Urban policy under capitalism, v. 20, p. 237-259, 1982.
CHAPUIS, A. Performances touristiques et production des identités spatiales individuelles à Amsterdam. Carnets de géographes, n. 6, 2013.
CHRISTAFORE, D.; LEGUIZAMON, S. Is ‘Gaytrification’ a Real Phenomenon. Urban Affairs Forum, v. 54, n. 5, p. 994-1016, 2018.
DAHLES, H. Redefining Amsterdam as a tourist destination. Annals of Tourism Research, v. 25, n. 1, p. 55-69, 1998.
DRIFT, S. van der. Revealing spatial and temporal patterns from Flickr photography. A case study with tourists in Amsterdam. 2015. Dissertação de Mestrado, Wageningen University, Países Baixos.
DOAN, P. L. Planning and LGBTQI+ Communities: The Need for Inclusive Queer Spaces. Nova Iorque: Routledge, 2015. p. 21-38.
FISCHER, E. Locals and Tourists #18 (GTWA #14): Amsterdam. Disponível em: https://www.flickr.com/photos/walkingsf/4672179886/in/album-72157624209158632/. Acesso em: 12 jun. 2020.
FLORIDA, R. The rise of the creative class. Basic books, 2019.
GHAZIANI, A. There goes the Gayborhood? Princetown: Princeton University Press, 2014.
GIRAUD, C. Les commerces gays et le processus de gentrification: l’exemple du quartier du Marais à Paris depuis le début des années 1980. Métropoles, v. 5, p. 79-115, 2009.
GIRAUD, C. Sociologie de la gaytrification. Identités homosexuelles et processus de gentrification à Paris et Montréal. Tese de doutorado. Universidade Lumière Lyon 2, Faculdade de Antropologia e Sociologia: Lyon, 2010. Disponível em: http://theses.univ-lyon2.fr/documents/lyon2/2010/giraud_c/info. Acesso em: 03 abr 2020.
GIRAUD, C. Sociologie de la gaytrification. Les quartiers gays à l’épreuve de la gentrification, Mémoire de master 2 de sociologie, Université Lumière - Lyon2, 2005.
GOH, K. Safe cities and queer spaces: The urban politics of radical LGBT activism. Annals of the American Association of Geographers, v. 108, n. 2, p. 463-477, 2018.
HAESBAERT, R. Dos múltiplos territórios à multiterritorialidade. Set, 2004. Disponível em https://www.ufrgs.br/petgea/Artigo/rh.pdf. Acesso em: 01 nov. 2020.
HAESBAERT, R. Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.
HAYLLAR, B.; GRIFFIN, T.; EDWARDS, D. City Spaces – Tourist Places: Urban Tourism Precincts. Oxford: Elsevier, 2008.
KAYGALAK-CELEBI, S.; OZEREN, E.; AYDIN, E. Let’s Have a Party with Politics: A Qualitative Research on Amsterdam Pride. In: Conference: Equality Diversity & Inclusion Conference 2019. Julho de 2019, Rotterndam, Países Baixos, 2019.
KLEEF, J. van, SMITS, H. W. De zaak Kooistra - opkomst en ondergang van een horecamagnaat. Amsterdam: Uitgeverij L. J. Veen, 2011.
KROLIKOWSKI, C.; BROWN, G. A estrutura e a forma das áreas funcionais turísticas urbanas: montando o palco para a performance turística. In: HAYLLAR, B.; GRIFFIN, T.; EDWARDS, D.; ALDRIGUI, M. Turismo em cidade: Espaços urbanos, lugares turísticos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
LAESTADIUS, L. Instagram. In: QUAN-HAASE, A.; SLOAN, L. (org.). The SAGE Handbook of Social Media Research Methods. Thousand Oak, Califórnia: Sage Publications, 2017, p. 573-592
LARSEN, J. Performing Tourist Photography. Social & Cultural Geography, v. 5, n. 3, p. 515, 2004.
MACKAY, K. J.; COULDWELL, C. M. Using visitor-employed photography to investigate destination image. Journal of Travel Research, v. 42, n. 4, p. 390-396, 2004.
MARTEL, F. Global Gay: How Gay Culture Is Changing the World. Cambridge: The MIT Press, 2018.
MASSEY, D. Space, place, and Gender. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1994.
MATOS, T. C. A dinâmica espacial gay na região da Avenida Paulista: o caso da Rua Frei Caneca. 2015. Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
MAYR, P.; WELLER, K. Think Before You Collect: Setting Up a Data Collection Approach for Social Media Studies, p. 107-124. In: QUAN-HAASE, A.; SLOAN, L. (org.). The SAGE Handbook of Social Media Research Methods. Thousand Oak, California: Sage Publications, 2017.
NEVES, C. S. B. Tourism Area Life Cycle: Historiographic interpretation of Reguliersdwarsstraat as LGBT tourist territory in Amsterdam. Applied Tourism, v. 6, n. 1, 45-58, 2021.
NEVES, C. S. B.; CHEMIN, M.; BRAMBATTI, L. E. De gueto a destino turístico urbano: um estudo da ‘Regulierdwarsstraat’, Amsterdã, Holanda no contexto LGBTQ+. Revista Latino-Americana de Geografia e Gênero, v. 12, n. 1, p. 72-96, 2021.
NEVES, C. S. B.; SILVEIRA, M. C. T. The use of Instagram as a gaytrification tool for a queer precinct. Tourism Geographies, v. 26, n. 3, p. 540-560, 2024.
ROSE, G. Feminism & Geography: the limits of geographical knowledge. Cambridge: Polity Press, 1993.
SPEK, B. van der. Lintjesregen 2015: de nieuwe ridders en officieren van Amsterdam. Het Parool, 24 de abril de 2015. Disponível em: https://www.parool.nl/nieuws/lintjesregen-2015-de-nieuwe-ridders-en-officieren-vanamsterdam~bb6e014a/. Acesso em: 16 fev. 2024.
ÜNAL, A.; AKYOL, C. A research on the evaluation of destination Instagram general user comments of tourists: the cases of Mykonos and Kaş. Uluslararası Avrasya Sosyal Bilimler Dergisi, v. 12, n. 46, p. 968-984, 2021.
VISSER, G. Urban tourism and the de-gaying of Cape Town’s De Waterkant. Urban Forum, v. 25, n. 1, p. 469-482, 2014.
ZEBRACKI, M.; JANSSENS, F.; VANDERBECK, R. Gay monuments in queer times: Amsterdam’s Homomonument and the politics of inclusive social practice. Sexualities, v. 26, n. 3, p. 298-330, 2023.
ZEBRASCKI, M., MALIEPAARD, E. Amsterdam Gay Capital af. Geografie, v. 3, n. 1, p. 24-25, 2012. Disponível em: https://geografie.nl/artikel/amsterdam-gay-capital-af. Acesso em: 12 set. 2020.










