CHAMADA DE TRABALHOS - 6ª EDIÇÃO DA REVISTA COR LGBTQIA+

15.08.2023

A Revista COR LGBTQIA+ torna pública chamada de trabalhos para a 6ª edição da Revista COR LGBTQIA+, com a temática Gênero, corpos, sexo e sexualidade das pessoas LGBTQIPN+ com deficiência: a intersecção das diversidades

Organizadoras: Daniela Alves de Lima Barbosa, Walleria Suri Zafalon e Geiza Ferreira dos Santos.

Ementa: Este dossiê temático tem como objetivo reunir pesquisas que dialoguem com a interseccionalidade sexualidade, gênero, necropolítica, biopoder, capacitismo e pessoa com deficiência, como ênfase em estudos que considerem pessoas LGBTQIPN+, em especial pessoas trangêneras. Para tanto, devem ser valorizadas as pesquisas que tenham como lócus a sexualidade das pessoas LGBTQIPN+ com deficiência, que apontem para a desconstrução de padrões hegemônicos baseados na cisheteronormatividade e no capacitismo, de modo a demonstrar como os impactos da transfobia, da homofobia, da necropolítica e do capacitismo afetam a vida das de pessoas LGBTQIPN+ com deficiência e seus corpos dissidentes.

Justificativa:

A discussão sobre identidade de gênero, corpo e sexualidade é ampla, multifacetada e complexa. Estas categorias de análise atravessam discursos que não podem ser neutros, tais como os discursos capacitistas, sobre necropolítica e deficiência.

A sexualidade das pessoas com deficiência pode ser considerada um dos tabus mais intocáveis de nossa cultura contemporânea. O capacitismo estrutural da sociedade se impõe, inegavelmente, com imensa opressão sobre o gênero e vida sexual dessas pessoas. Na prática, esse viés capacitista não considera que pessoas com deficiência podem se casar constituir uma família e tão pouco ter filhos, não pondera sequer que tenham desejo sexual. É comum encontrar pais que tratam seus filhos com deficiência com se não tivessem gênero nenhum, vestindo-os com roupas neutras e sem estilo, como se precisassem apenas cobrir o corpo. Neste cenário de grave anulação do gênero e da sexualidade de muitas pessoas com deficiência, não é raro encontrar histórias de pessoas que precisaram travar muitos enfrentamentos apenas para ter o direito de se relacionar afetivamente, ou mesmo gerar um filho.

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais - ANTRA elaborou um dossiê no ano de 2023, com dados de 2022 sobre assassinatos no Brasil de pessoas transgêneras. Neste mesmo dossiê foi divulgada uma pesquisa da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais - ILGA que situou o Brasil como segundo país que mais tem evoluído em conquistas de direitos para a população LGBTQIAPN+. Todavia, na contramão desta informação, a nação desponta como o país que mais assassina pessoas trans no mundo (pelo 14º ano consecutivo) e, a cada 10 pessoas assassinadas em nível global, quatro desses crimes decorreram no Brasil (Transrespect versus Transphobia World Wilde - TvT), ou seja, sozinho, o país acumula 38,2% de todas as mortes de pessoas trans do mundo. Tais dados revelam a necropolítica de Estado, pois as pessoas transgêneras e consequentemente seus corpos, como afirma Achille Mbembe (2018) estão submetidas a uma política de morte, manifestada pelo biopoder (Foucault, 2012) na direção da disciplina dos corpos.

Se torna complexo e desafiador a busca pelo reconhecimento social de que uma pessoa com deficiência tenha desejos sexuais ou se relacione afetivamente e construa sua própria família não apenas dentro dos moldes tradicionais cis hetero binários, é preciso reconhecer que essas pessoas também podem possuir gênero ou sexualidades ditas como dissidentes, ou seja, pessoas com deficiência podem sim também pertencerem à comunidade LGBTQIAPN+. Para o espanto de muitos, existem cegos gays, existem cadeirantes lésbicas, existem surdas transexuais ou não binárias, existem autistas bissexuais e tantas outras manifestações de gênero e da sexualidade expressadas pela diversidade humana, e que podem sim ser manifestadas por pessoas com deficiência, mas que são severamente silenciadas pela nossa cultura capacitista e cisheteronormativa.

Disto isso, essa interseccionalidade é intencionalmente ignorada em nossa sociedade pela cultura opressora que é capacitista e cisheteronormativa, desnudando a necropolítica pela qual esses corpos são expostos. Se já é difícil aceitar que uma mulher cega ou uma tetraplégica pode ter uma vivência heterossexual, por exemplo, imagina admitir que elas podem também ser homo, bi ou trans? E assim, para que a sociedade não precise lidar com essas questões, que ao mesmo tempo mexem com estruturas LGBTfobicas e capacitistas, nada se fala a respeito desse recorte interseccional. Não há dados sobre essa intersecção, não há políticas ou ações sociais específicas para a comunidade LGBTQIAPN+ com deficiência, bem como há poucos estudos acadêmicos que se debruçam a investigar sobre o universo das pessoas LGBTQIAPN+ com deficiência. Até mesmo a própria comunidade LGBTQIAPN+ tem dificuldades em acolher pessoas com deficiência, pois em sua maioria há o capacitismo estrutural.

Olhando para todos esses desafios num contexto de exclusão e invisibilidade para esta parcela da população, acreditamos ser de imensa importância que esse tema seja movimentado em nossa sociedade, em especial com pesquisas neste dossiê que se debrucem em abordar a temática. A sociedade precisa ser provocada a refletir sobre essa interseccionalidade, a fim de compreender que os seres humanos não se fazem apenas de uma só maneira, pois existem elementos que se interseccionam e compõem a constituição de cada indivíduo, que faz de cada um de nós uma existência única no mundo.

Assim, partindo da compreensão de que as categorias biopoder, corpo, necropolítica, capacitismo, deficiência, gênero, sexo e sexualidade estão fortemente imbricadas, acreditamos que debater temas como estes pode produzir relevantes mudanças conceituais e estruturais e, consequentemente, atitudinais.

Em tempos turbulentos na conjuntura política e social, onde, em pleno ano de 2023, carregamos marcas da governabilidade anterior, balizada por um projeto de governo autoritário, patriarcal, negacionista, anti-científico, anti-direitos humanos, anti-gênero, anti-LGBTQIAPN+, é preciso visibilizar narrativas LGBTQIAPN+ com deficiência e seus corpos dissidentes, buscando a desconstrução de padrões hegemônicos, e situando a pessoa LGBTQIAPN+ com deficiência em um campo tenso e ao mesmo tempo enquanto possibilidade e direito de ser e estar no mundo.

Prazo para submissão: 15/10/2023.

Link para submissão: https://revistas.ceeinter.com.br/CORLGBTI/about/submissions.